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O ROI que você não está medindo na programática

Já aconteceu com você? Você olha o relatório de uma campanha programática, vê um ROAS de 5x ou 6x, e sente que algo está errado. Ou, ao contrário, os números mostram prejuízo, mas você tem a sensação de que a campanha gerou mais valor do que aparece nos gráficos. Pois é: eu passo meus dias vendo isso acontecer com marcas americanas que gastam milhões em programática. E, na maioria das vezes, o problema não está na tecnologia - está na régua que usamos para medir.

Trabalho com marketing digital nos Estados Unidos há mais de dez anos, e já gerenciei mais de US$ 50 milhões em verbas programáticas para empresas de setores como finanças, varejo e tecnologia. Uma coisa que aprendi nesse caminho é que o ROI de programática é um dos indicadores mais fáceis de distorcer - não por má fé, mas porque os modelos de atribuição tradicionais simplesmente não foram feitos para capturar o efeito real desse canal. O último clique é um mentiroso convincente. E, se você confia só nele, está tomando decisões com dados incompletos.

Neste artigo, vou mostrar por que seus números podem estar errados e, mais importante, como corrigi-los com um método que usei na prática com dezenas de clientes. Vou falar sobre os três vilões que distorcem o ROI, apresentar um framework de três camadas, e dar exemplos reais - inclusive um caso em que uma campanha que parecia terrível na verdade gerava lucro. Também vou abordar a febre das retail media networks e como evitar a armadilha de superestimar resultados. Vamos nessa?

Os três vilões do ROI falso

Antes de falar de solução, preciso que você entenda o que está sabotando seus relatórios. Identifiquei três problemas que atuam juntos e criam uma ilusão - seja de sucesso ou de fracasso.

1. Fake engagement e tráfego de baixa qualidade

O mercado programático é voraz. Plataformas de compra de mídia, como The Trade Desk, DV360 e Amazon DSP, oferecem inventário a CPMs que podem cair para US$ 1 ou US$ 2. Parece barato, mas, na prática, esse inventário muitas vezes vem de sites com conteúdo duvidoso, tráfego robótico ou audiência de baixíssimo engajamento. Seu banner aparece, mas ninguém de verdade vê. A taxa de clique é quase zero. A conversão, idem.

Quando isso acontece, o relatório de último clique mostra que a campanha não gerou retorno. Você corta o orçamento e conclui que programática não funciona. Mas o erro não foi do canal - foi do ambiente que você escolheu. E você nem percebeu, porque não estava monitorando viewability e tráfego inválido.

2. Canibalização de conversões orgânicas

Esse é o mais traiçoeiro de todos. Imagine um usuário que vê seu banner de display, não clica, mas depois pesquisa sua marca no Google e faz uma compra via tráfego orgânico. O último clique vai para o Google. A programática fica sem crédito. Mas, se o banner não tivesse existido, aquela busca provavelmente não teria acontecido. A programática gerou a venda, mas não aparece no relatório.

Agora, pense no oposto: um usuário que já compraria de qualquer jeito - porque já conhece sua marca, porque recebeu um e-mail, porque viu um anúncio no YouTube. Esse usuário clica no banner e converte. O relatório de último clique dá todo o crédito para a programática. Mas a venda já estava garantida. O resultado é um ROI inflado que não se sustenta quando você para para analisar.

3. Brand lift invisível

O display e o vídeo programáticos são canais de marca por natureza. Eles constroem familiaridade, geram lembrança e influenciam decisões de compra que acontecem dias ou semanas depois. Mas, se você só mede cliques e conversões diretas, está ignorando o principal benefício. Pesquisas do Google e da Nielsen mostram que campanhas de display podem aumentar as buscas por marca em 20% a 40% e o tráfego direto ao site em 15% a 25%. Sem medir brand lift, você está dirigindo com os olhos vendados.

O framework das três camadas que uso na prática

Depois de anos quebrando a cabeça com esses problemas, desenvolvi um método de medição que aplico em todos os clientes. Ele tem três camadas, cada uma com um propósito específico.

Camada 1: Métricas de eficiência

Essa camada responde a uma pergunta básica: "Estou pagando para ser visto ou apenas para existir?" As métricas aqui são tradicionais, mas com ajustes críticos.

  • CPM com viewability: Um CPM de US$ 3 com 30% de viewability é mais caro do que US$ 8 com 90%. Você está pagando para aparecer em telas que ninguém vê. Use ferramentas como Integral Ad Science ou DoubleVerify para filtrar.
  • Taxa de completude de vídeo: Para anúncios em vídeo, não olhe só o primeiro quartil. O que importa é quantos usuários assistiram até o final.
  • Custo por clique qualificado: Nem todo clique vale ouro. Filtre bots e tráfego de baixa qualidade antes de calcular.

Essa camada serve para otimizar a compra de mídia. Se a viewability está baixa, mude de publisher ou de formato. Se o custo por clique qualificado está alto, ajuste os parâmetros de segmentação. É o básico bem feito.

Camada 2: Métricas de impacto incremental

Agora entra o pulo do gato. Em vez de comparar conversões totais entre canais, você precisa medir o que aconteceu a mais por causa da campanha. O método mais confiável é o teste com grupo de controle.

  1. Separe um grupo de usuários que não será exposto à campanha - geralmente de 10% a 20% da audiência.
  2. Meça as conversões de ambos os grupos no mesmo período.
  3. Calcule a diferença: conversões do grupo exposto menos conversões do grupo de controle.
  4. Divida essa diferença pelo custo da campanha. Esse é o ROI incremental.

Deixe eu dar um exemplo prático que vivi com um e-commerce americano de moda. A marca gastava US$ 100 mil por mês em programática. O relatório de último clique mostrava uma receita de US$ 400 mil - um ROAS de 4x, aparentemente ótimo. Mas, quando montamos um grupo de controle, descobrimos que o grupo não exposto gerou US$ 350 mil em vendas. A receita incremental foi de apenas US$ 50 mil. O ROI incremental? (US$ 50 mil - US$ 100 mil) / US$ 100 mil = -50%. A campanha estava dando prejuízo.

Sem o grupo de controle, a decisão teria sido manter o investimento e achar que estava tudo bem. Com ele, cortamos a campanha e redirecionamos o orçamento para canais com ROI incremental positivo.

Ferramentas para fazer esse tipo de teste incluem o Google Campaign Manager 360, o Amazon Marketing Cloud e plataformas de medição independentes como Nielsen e Kantar. Se você não tem acesso a elas, dá para começar com um experimento simples no Google Ads ou no Facebook Ads, usando públicos segmentados aleatoriamente.

Camada 3: Métricas de negócio de longo prazo

A última camada responde a uma pergunta mais estratégica: "Que tipo de cliente a programática está trazendo?"

  • Custo por novo cliente: Não meça só conversões totais. Calcule quantos clientes realmente novos a campanha gerou.
  • Lifetime value (LTV): Clientes vindos de programática costumam ter LTV diferente dos que vêm de busca ou redes sociais. Acompanhe essa diferença por pelo menos 90 dias.
  • Taxa de recompra: Se a programática atrai muitos compradores de primeira viagem que nunca voltam, o ROI de curto prazo pode enganar. Meça a taxa de recompra em 30, 60 e 90 dias.

Ferramentas como Google Analytics 4, Mixpanel e plataformas de CDP ajudam a cruzar dados de exposição programática com comportamento de compra ao longo do tempo. Não é trivial, mas é essencial.

Estudo de caso real: uma fintech americana

Há dois anos, trabalhei com uma fintech que oferece serviços financeiros para pequenas empresas. A empresa gastava US$ 200 mil por mês em programática, e os relatórios de último clique mostravam um ROAS de 1,8x - abaixo do ponto de equilíbrio. A equipe estava prestes a cortar o canal.

Propus um teste de 60 dias com grupo de controle. O resultado foi surpreendente:

  • Grupo exposto: US$ 1,2 milhão em receita.
  • Grupo de controle: US$ 900 mil em receita.
  • Receita incremental: US$ 300 mil.
  • ROI incremental: (US$ 300 mil - US$ 200 mil) / US$ 200 mil = 50% positivo.

Além disso, medimos brand lift: as buscas por marca cresceram 22% no grupo exposto, e o tráfego direto ao site aumentou 15%. Quando incluímos essas conversões indiretas, o ROI saltou para 120%. A campanha não só foi mantida como triplicada. Se a decisão tivesse sido baseada no último clique, a fintech teria perdido um canal lucrativo.

A armadilha das retail media networks

Um dos assuntos mais quentes em 2024 e 2025 é o crescimento das retail media networks. Amazon Ads, Walmart Connect, Instacart Ads, Target Roundel - todas prometem ROIs altíssimos, muitas vezes acima de 8x ou 10x. E, de fato, os números iniciais costumam impressionar. Mas tem um porém.

Primeiro: essas plataformas cobram taxas de advertising que variam de 30% a 50% do gasto total. Se você investe US$ 100 mil, apenas US$ 50 mil a US$ 70 mil vão efetivamente para a compra de mídia. O resto é taxa.

Segundo: a canibalização de vendas orgânicas é brutal. Se o seu produto já aparece naturalmente nos resultados de busca da Amazon, um anúncio patrocinado pode simplesmente roubar um clique que viria de qualquer forma. Estudos internos da Amazon mostram que, para marcas bem estabelecidas, até 70% das conversões de anúncios podem ser canibalizadas. Você está pagando por algo que já teria de graça.

Para saber se suas campanhas em retail media estão gerando ROI real, o princípio é o mesmo: faça testes com grupos de controle. O Amazon Marketing Cloud permite criar segmentos e medir incrementalidade. Use essa ferramenta - ou contrate um parceiro de medição independente.

Passos práticos para começar agora

Se você quer implementar essa abordagem na sua empresa, aqui está um roteiro que funciona.

  1. Configure grupos de controle no seu DSP. A maioria das plataformas, como The Trade Desk e DV360, permite criar holdouts de 10% a 20% da audiência. Se não, use um parceiro de medição.
  2. Integre dados de conversão offline. Vendas em lojas físicas, ligações telefônicas e cadastros em CRM são tão importantes quanto conversões online. Use ferramentas como LiveRamp ou InfoSum para conectar os pontos.
  3. Defina um período de teste mínimo. 30 dias é o mínimo para brand lift. Para ciclos de compra mais longos, como no setor financeiro ou automotivo, 60 a 90 dias são necessários.
  4. Use um modelo de atribuição data-driven. No Google Analytics 4, no Google Ads e em plataformas como Rockerbox, o modelo baseado em dados considera múltiplos pontos de contato, incluindo view-through de display.
  5. Monitore viewability e tráfego inválido semanalmente. Estabeleça KPIs mínimos: viewability acima de 70% para display e 65% para vídeo. Desative fontes que não os atinjam.

O que eu aprendi com mais de uma década de programática

Se eu pudesse resumir tudo em uma frase, seria esta: a programática não é uma aposta - é uma ferramenta poderosa, mas só se você medir do jeito certo. O último clique é um atalho tentador, mas ele leva a decisões erradas. O viés incremental é o verdadeiro vilão, e só com grupos de controle e métricas de brand lift você consegue enxergar a realidade.

Não estou dizendo que programática é sempre positiva. Muitas campanhas realmente dão prejuízo. Mas, sem a medição correta, você nunca vai saber quais são quais. Você pode estar cortando o canal que mais gera valor ou mantendo aquele que está drenando recursos.

Então, antes de tomar sua próxima decisão de orçamento, pare. Olhe para os números com olhos incrementais. Configure um teste. Meça brand lift. Calcule o LTV. Pode ser que você descubra que seu ROI não é o que parecia - para melhor ou para pior. Mas, pelo menos, será a verdade. E, em marketing digital, a verdade é o único ROI que realmente importa.

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